O trabalhador brasileiro e a nova ordem mundial

Segunda-feira, 23 Outubro 2006
* texto que será apresentado em um seminário sobre o Trabalhador Brasileiro, nesta terça. Achei legal postar aqui e receber opiniões:

Neste mundo pós Guerra Fria, dizer-se “marxista” está um tanto fora de moda. Muitos costumam deixar a barba por fazer e falar “sou comunista” apenas para ter um pouco daquele charme revolucionário da esquerda e conquistar algumas garotas idealistas. Mas, concorde você ou não com as teorias de Marx, saiba que ele foi bastante preciso ao diagnosticar a dinâmica da sociedade de sua época. O principal acerto foi ter o proletário, o trabalhador, como o grande agente das desejadas e, para ele, inevitáveis mudanças sociais que nos levariam a um mundo mais justo.

Ora, se a sociedade capitalista está baseada na apropriação da força de trabalho do homem e na transformação da mesma em capital (lucro), nada mais natural do que ver o trabalhador como o grande combustível que faz girar esta engrenagem. O operário era muito menos descartável do que queriam fazer parecer as classes ditas dominantes, tanto que ele precisava ser controlado e cerceado. Óbvio que tais mecanismos de controle nem sempre deram certo, e em muitos momentos a força de mobilização do proletariado teve o merecido papel central em grandes mudanças históricas, mesmo que não exatamente como Marx havia pensado.

Mas o mundo passou por uma série de transformações que redimensionaram o papel do trabalhador na ordem capitalista. Por motivos que talvez apenas os economistas mais tarimbados saibam diagnosticar, o capital parece ter ganho vida própria. Ele cresce e se retroalimenta, parecendo ter vontade própria, quase como um Deus que não pode ser contido e que mais do que nunca governa a vida das pessoas. E não bastasse a força do tal capital especulativo, temos o absurdo avanço tecnológico que, se nos permite milhares de oportunidades, também nos apresenta uma nova organização social que coloca em xeque nossos valores mais arraigados, assim como nossos papéis na sociedade.

Todos conhecemos o YouTube, um sítio que tem importante papel ao disponibilizar em vídeo boa parte de nossa história recente, mas que tem como principal função divertir adolescentes que passam horas assistindo outros adolescentes em situações ridículas. Tal sítio, um empreendimento que não demanda grande logística, foi recentemente adquirido pelo Google, que pagou o valor de US$ 1,65 Bilhão. A pergunta que fica é: nesta nova ordem globalizada, qual o verdadeiro valor do trabalho? E do trabalhador? Nada temos contra o capital que gera capital, mas como se sente o trabalhador que vê a cada dia colegas perdendo postos de trabalho ou pela crescente automatização das linhas, sempre em nome da produtividade, ou pela fuga de investimentos que correm das fábricas em busca de títulos oferecidos com promessas de juros altos e grandes ganhos?

No Brasil, a situação é um tanto mais grave. Não precisamos olhar aprofundadamente para a história do operariado e da organização do trabalho em nosso país para perceber o quanto nosso trabalhador está despreparado para tais incertezas. Certo, o mundo pode não estar pronto para as consequências desta globalização, mas que dizer de alguém que não conhece, salvo alguns poucos momentos, a própria força de mobilização e seu papel na sociedade?

O trabalhador brasileiro foi convenientemente, ao longo dos anos, envolto pela desinformação e, pior, habituado ao mais puro paternalismo. Os sindicatos que tão prontamente deveriam defender os interesses de suas classes profissionais são há muito tempo simples trampolins políticos, moeda de troca nas mãos de oportunistas; reféns de partidos e ideologias, mas pouco afeitos às necessidades dos trabalhadores.

Direitos básicos e mais que merecidos foram oferecidos por governos populistas como um favor, mas nada mais eram que uma forma de desestimular as reivindicações por parte dos trabalhadores. Infelizmente, esta ainda é a tônica das relações trabalhistas no Brasil. Nosso operário está acostumado a esperar, a receber a dádiva que vem de cima, mas não está habituado a participar democraticamente dos debates que envolvem seu futuro e seu bem estar. Ele não acredita nas instituições, mas não sabe como pode melhora-las.

O pior é que ele acaba sendo o vilão da história. Quem não ouviu dizer que as leis trabalhistas oneram os empregadores, impedindo que os salários sejam maiores porque os funcionários já têm muitos benefícios? Sim, as empresas têm realmente diversos e pesados custos relacionados à mão-de-obra, mas que tal culparmos também o Estado ineficiente que se utiliza de pesados impostos, normalmente retidos na fonte, para tentar mês a mês tapar os rombos da contabilidade nacional que não fecha?

Não sabemos qual a saída para este estado de coisas. Temos cientistas sociais trabalhando sobre esta questão, e mesmo eles não foram capazes ainda de prever qual o rumo das relações sociais e de trabalho. Apenas podemos apontar um primeiro passo: a educação. Estar informado, ser capaz de olhar o mundo e identificar, filtrar os dados e perceber seus possíveis caminhos é absolutamente vital para o trabalhador hoje. Será preciso mobilização, será preciso debate político, será preciso criatividade, e só a partir da educação poderemos caminhar nesse sentido. Devemos então lutar por ela.

Recentemente eu participei de um projeto junto de uma ONG chamada Opção Brasil, onde dava aulas para adultos de uma comunidade na Zona Leste; adultos que estavam buscando recolocação profissional. O conteúdo buscava preparar essas pessoas para melhor exercer a cidadania. Noções de economia, de política. “Por quê o dólar sobe e como isso afeta a minha vida?” ou “quando um partido se diz de esquerda ou direita, o que isso quer dizer?”. Vocês ficariam surpresos ao perceber o quanto pessoas aparentemente simplórias as vezes só precisam de voz. Sentindo-se valorizadas e mais cientes de seu papel na sociedade, a estima destas pessoas subiu e muitas delas conseguiram novas colocações. Aqueles que não obtiveram empregos ao menos passaram a ter uma visão mais crítica de seu mundo, mesmo que tenham ainda medo de que essa visão crítica os atrapalhe na hora de buscar um novo emprego: “patrão não gosta de quem pensa”.

Não podemos dizer para um pai de família que ter visão crítica é mais importante que estar empregado, mas com certeza podemos mostrar a ele o quanto estar informado e pensar criticamente sua vida pode ser importante para melhor colocar-se dentro deste novo estado de coisas, sem esperar decisões paternalistas dos governos, mas sim participando ativamente do jogo democrático. O esforço necessário para chegarmos a tanto é hercúleo, mas já é um grande começo.


Em um parágrafo, tudo o que eu poderia dizer sobre Socialismo

Quarta-feira, 13 Setembro 2006
“Assim, sob qualquer ângulo que se esteja situado para considerar esta questão, chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas populares por uma minoria privilegiada. Esta minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim, com certeza, de antigos operários, mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários e pôr-se-ão a observar o mundo proletário de cima do Estado; não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem duvida disso não conhece a natureza humana.” - Por Mikhail Bakunin

É incrível como tantas pessoas ignoram algo tão claro e historicamente comprovado. E sinceramente acredito que só poderemos enfrentar tal questão quando TODOS estivermos de olhos abertos para ela. Estou cansado de ver pessoas brilhantes cegadas pela ideologia, qualquer que seja.


Fidel Castro morreu?

Sexta-Feira, 4 Agosto 2006

“O assunto da moda é o Fidel Castro, mais uma vez. Morreu, está morrendo ou não vai morrer nunca? Jamais uma figura foi tão capaz de tornar verdadeira a distinção entre esquerda e direita, que, como todo mundo insiste em lembrar, é ficcional. Muitas pessoas que nunca tiveram nada a ver com Cuba, e que por sinal talvez não saibam apontar no mapa onde essa tal ilha fica (se é que sabem que é uma ilha) se referem a ele como “aquele ditador maldito”. São de direita. Outros, com mais ou menos o mesmo nível de referência sobre o país do homem, se referem a ele como “o grande revolucionário”. São de esquerda.” - continue lendo este lúcido texto sobre o “ditador revolucionário” no Para Ler Sem Olhar.


Cara-de-pau

Terça-feira, 26 Abril 2005
Temos este histórico de evolução da taxa Selic, chegando a 19,5 % no último dia 20 e o Sr. Presidente em mais um daqueles discursos-de-quem-joga-para-a-torcida resolve dizer que a classe média é que é acomodada e logo culpada pelas taxas absurdas:

“às vezes o cara está no bar, com um grupo de amigos tomando um chope, o que é um direito dele, todo filho de Deus tem direito de tomar um chopinho de vez em quando, de preferência na sexta-feira, está lá xingando o banco, xingando os juros, xingando o cartão de crédito, mas no dia seguinte é incapaz de levantar o traseiro de uma cadeira e ir no banco mudar”

Combinado, vamos agir daqui para a frente. E como este discurso foi mais que inspirador, vamos fazer mais. Que tal invadirmos o BC nos dias de reunião do COPOM? Vamos acampar por lá… Além disso podemos também voltar a guardar o nosso dinheiro debaixo dos colchões ou enterrar nos quintais, tudo para acabar com esses bancos dos quais as atividades (e os abusos) já são tão bem “regulamentadas” e “fiscalizadas” pelo governo.


Mundo dos sonhos

Quinta-feira, 21 Abril 2005

Do Velho do Farol:

“O mundo dos sonhos da direita cristã é um onde todos sejam cristãos. O dos ateístas radicais é um onde as igrejas não existam. Já as pessoas normais sabem que isso são quimeras, e a maioria delas se contentaria com uma coexistência pacífica entre os vários credos e entre os ateus e agnósticos também. Esse é o meu mundo dos sonhos, e não me incomodo nem um pouco de estar do lado da maioria.”

É meu sonho também. Aliás, o tal Paraíso (se existe) deve ser exatamente assim.


PC Conectado

Terça-feira, 29 Março 2005

Brazil: Free Software’s Biggest and Best Friend - NY Times (necessário cadastro no sítio ou a extensão BugMeNot para Firefox)

“We’re not going to spend taxpayers’ money on a program so that Microsoft can further consolidate its monopoly. It’s the government’s responsibility to ensure that there is competition, and that means giving alternative software platforms a chance to prosper.”

Tenho 2500 motivos para atirar pedras no Governo Lula. O governo é demagógico, pouco atuante, populista e etc. De qualquer forma, se tem uma iniciativa pela qual estou torcendo é essa do PC Conectado. Verdade que o programa tem uma série de pontos-chave a serem discutidos e corre o risco de cair na mesma vala do Fome-Zero (alguém lembra dele?), mesmo assim, apenas o fato de atentar para esta questão e propor algo já foi um grande passo. O discurso até o momento está muito bonito, vamos ver como será na prática. Aguardo o desenrolar da coisa toda na torcida.

precisão pouca é bobagem

Domingo, 20 Fevereiro 2005
O Google está testando um novo serviço nos EUA, o Google Maps. A promessa é a de ser algo inovador em termos de mapas online, diferente de tudo o que conhecemos na área. Já começou bem, na busca por “miserable failure in washington dc” a primeira opção é certeira: George W Bush, (202) 456-1414, The White House. Quais serão as repostas quando tivermos o Google Maps BR?

Fonte: Google Blogoscoped


Cara-de-pau

Sexta-Feira, 18 Fevereiro 2005

PP agora quer dois ministérios para ficar com Lula (Folha de S. Paulo)

O Sr. Severino entrou em ação bem mais rápido do que eu imaginava…


Severino Cavalcanti

Quinta-feira, 17 Fevereiro 2005
Muita gente comemorou a lambança do PT ao perder a presidência da Câmara dos Deputados. Foram 300 votos contra, nenhum lugar na mesa diretora da casa e uma verdadeira lição de como não se faz política. O PT no governo vive uma dificuldade gritante para acomodar todas as “tendências” internas e o partido não sabe mesmo para onde ir ou o que fazer. Logo devo escrever mais a respeito aqui. Tudo bem, eu também estaria comemorando se fosse oposição direta ao Governo.
Mas poucas pessoas pararam para olhar o outro lado da questão. Já é grave o suficiente que alguém como o Sr. Severino Cavalcanti tenham voz ativa na Câmara. Muito grave. Mas é desesperador quando tal indivíduo é eleito com votação expressiva fazendo uso de promessas de aumentos de salários para os deputados. Acabo de saber que ele disse hoje que os deputados que forem contra o aumento devem apresentar um ofício com a reclamação, para continuarem então a receber apenas míseros pouco mais que R$ 12.000,00.
Todos sabem que sou muito crítico ao governo petista e vejo sim uma derrota política grave no caso. Mas acredito que o país está perdendo muito mais. O Sr. Severino não vai barrar nenhum projeto do Governo. Apenas vai barganhar e tentar obter o máximo de favores que puder. Quem conhece a trajetória política dele sabe do seu apego ao poder, seja lá quem estiver lá.
É engraçado. Cheguei a ler que o Ronaldo deveria ter feito a festa dele no Brasil. Que devia fazer uma festa simples e doar o dinheiro, fazer o casamento aqui para gerar empregos e todo tipo de absurdos do gênero. Podemos até discutir em novos posts a questão dos ganhos vultuosos das celebridades do esporte. Tenho algo a dizer a respeito. Mas o dinheiro do Ronaldo é dele. Se ele quer gastar o que é dele para juntar Cicarelli e Chantilly (o que deve mesmo ser bom) ninguém tem nada com isso. Como todo mundo dá palpite e fica indignado com os gastos de um atleta no exterior e ninguém grita quando um parlamentar se elege presidente da Câmara zombando de nós, com propostas que lidam diretamente com o NOSSO dinheiro? A imprensa está focada na derrota do PT, até entendo. Mas não tratem o nome de quem foi eleito como um mero detalhe, porque não é.
Vale citar também que nosso deputado é conservador e homofóbico. Vive trabalhando contra projetos que tragam benefícios e direitos aos gays. É daqueles que não acreditam na separação saudável entre Estado e Igreja.

Abaixo, trecho de um post do Inagaki que dá uma boa idéia de quem é Severino Cavalcanti:

Severino Cavalcanti, 74, recém-eleito presidente da Câmara dos Deputados graças às disputas internas do PT e a uma campanha que prometeu, dentre outras coisas, elevar o salário dos deputados para R$ 20 mil, notabilizou-se por estar sempre na vanguarda do retrocesso: foi filiado ao UDN, Arena, PDS, PFL e atualmente está no PP, o mesmo partido de Paulo Maluf. Em todos esses anos, nunca deixou de ser governista, seja nos anos da ditadura militar ou nos mandatos de Sarney, Collor e FHC. Não deverá, pois, impor (muitos) obstáculos aos interesses do governo (Severino votou a favor de todos os principais projetos encaminhados por Lula, como as reformas previdenciária e tributária) desde que seja bobviamente paparicado, a começar por suas reinvindicações de mais e melhores salários.

Yasna

Sexta-Feira, 4 Fevereiro 2005
Yasna Golyari é uma amiga na qual tenho pensado muito nos últimos dias. É daquelas pessoas das quais nem teria notícias não fosse pela Internet, já que ela é iraniana, vive em Teerã. Não é difícil imaginar o motivo dos meus pensamentos: preocupação. São muitas as nossas conversas online sobre as diferenças culturais dos dois países e coisas assim, mas de uns dias para cá as conversas giram em torno da ameaça concreta da invasão estadunidense ao Irã. Como está em todos os noticiários, parece ser mesmo o próximo passo da cruzada pela liberdade do governo Bush.
Não apoio de nenhuma forma o estilo de governo do Irã, nem ela. O pai é escritor, tem uma série de dificuldades com o regime. Mas o estilo estadunidense de levar liberdade aos povos nos preocupa mais. Ela é direta: “Vamos todos morrer. Mas sabe, nosso presidente e nossos governantes são tão loucos quanto nosso querido Bush.” Não vão todos morrer, mas eu tenho medo. Por ela, que eu conheço e por quem já tenho grande carinho, e por todas essas pessoas que sofrem por culpa dos governantes loucos, delas e dos outros.