* texto que será apresentado em um seminário sobre o Trabalhador Brasileiro, nesta terça. Achei legal postar aqui e receber opiniões:
Neste mundo pós Guerra Fria, dizer-se “marxista” está um tanto fora de moda. Muitos costumam deixar a barba por fazer e falar “sou comunista” apenas para ter um pouco daquele charme revolucionário da esquerda e conquistar algumas garotas idealistas. Mas, concorde você ou não com as teorias de Marx, saiba que ele foi bastante preciso ao diagnosticar a dinâmica da sociedade de sua época. O principal acerto foi ter o proletário, o trabalhador, como o grande agente das desejadas e, para ele, inevitáveis mudanças sociais que nos levariam a um mundo mais justo.
Ora, se a sociedade capitalista está baseada na apropriação da força de trabalho do homem e na transformação da mesma em capital (lucro), nada mais natural do que ver o trabalhador como o grande combustível que faz girar esta engrenagem. O operário era muito menos descartável do que queriam fazer parecer as classes ditas dominantes, tanto que ele precisava ser controlado e cerceado. Óbvio que tais mecanismos de controle nem sempre deram certo, e em muitos momentos a força de mobilização do proletariado teve o merecido papel central em grandes mudanças históricas, mesmo que não exatamente como Marx havia pensado.
Mas o mundo passou por uma série de transformações que redimensionaram o papel do trabalhador na ordem capitalista. Por motivos que talvez apenas os economistas mais tarimbados saibam diagnosticar, o capital parece ter ganho vida própria. Ele cresce e se retroalimenta, parecendo ter vontade própria, quase como um Deus que não pode ser contido e que mais do que nunca governa a vida das pessoas. E não bastasse a força do tal capital especulativo, temos o absurdo avanço tecnológico que, se nos permite milhares de oportunidades, também nos apresenta uma nova organização social que coloca em xeque nossos valores mais arraigados, assim como nossos papéis na sociedade.
Todos conhecemos o YouTube, um sítio que tem importante papel ao disponibilizar em vídeo boa parte de nossa história recente, mas que tem como principal função divertir adolescentes que passam horas assistindo outros adolescentes em situações ridículas. Tal sítio, um empreendimento que não demanda grande logística, foi recentemente adquirido pelo Google, que pagou o valor de US$ 1,65 Bilhão. A pergunta que fica é: nesta nova ordem globalizada, qual o verdadeiro valor do trabalho? E do trabalhador? Nada temos contra o capital que gera capital, mas como se sente o trabalhador que vê a cada dia colegas perdendo postos de trabalho ou pela crescente automatização das linhas, sempre em nome da produtividade, ou pela fuga de investimentos que correm das fábricas em busca de títulos oferecidos com promessas de juros altos e grandes ganhos?
No Brasil, a situação é um tanto mais grave. Não precisamos olhar aprofundadamente para a história do operariado e da organização do trabalho em nosso país para perceber o quanto nosso trabalhador está despreparado para tais incertezas. Certo, o mundo pode não estar pronto para as consequências desta globalização, mas que dizer de alguém que não conhece, salvo alguns poucos momentos, a própria força de mobilização e seu papel na sociedade?
O trabalhador brasileiro foi convenientemente, ao longo dos anos, envolto pela desinformação e, pior, habituado ao mais puro paternalismo. Os sindicatos que tão prontamente deveriam defender os interesses de suas classes profissionais são há muito tempo simples trampolins políticos, moeda de troca nas mãos de oportunistas; reféns de partidos e ideologias, mas pouco afeitos às necessidades dos trabalhadores.
Direitos básicos e mais que merecidos foram oferecidos por governos populistas como um favor, mas nada mais eram que uma forma de desestimular as reivindicações por parte dos trabalhadores. Infelizmente, esta ainda é a tônica das relações trabalhistas no Brasil. Nosso operário está acostumado a esperar, a receber a dádiva que vem de cima, mas não está habituado a participar democraticamente dos debates que envolvem seu futuro e seu bem estar. Ele não acredita nas instituições, mas não sabe como pode melhora-las.
O pior é que ele acaba sendo o vilão da história. Quem não ouviu dizer que as leis trabalhistas oneram os empregadores, impedindo que os salários sejam maiores porque os funcionários já têm muitos benefícios? Sim, as empresas têm realmente diversos e pesados custos relacionados à mão-de-obra, mas que tal culparmos também o Estado ineficiente que se utiliza de pesados impostos, normalmente retidos na fonte, para tentar mês a mês tapar os rombos da contabilidade nacional que não fecha?
Não sabemos qual a saída para este estado de coisas. Temos cientistas sociais trabalhando sobre esta questão, e mesmo eles não foram capazes ainda de prever qual o rumo das relações sociais e de trabalho. Apenas podemos apontar um primeiro passo: a educação. Estar informado, ser capaz de olhar o mundo e identificar, filtrar os dados e perceber seus possíveis caminhos é absolutamente vital para o trabalhador hoje. Será preciso mobilização, será preciso debate político, será preciso criatividade, e só a partir da educação poderemos caminhar nesse sentido. Devemos então lutar por ela.
Recentemente eu participei de um projeto junto de uma ONG chamada Opção Brasil, onde dava aulas para adultos de uma comunidade na Zona Leste; adultos que estavam buscando recolocação profissional. O conteúdo buscava preparar essas pessoas para melhor exercer a cidadania. Noções de economia, de política. “Por quê o dólar sobe e como isso afeta a minha vida?” ou “quando um partido se diz de esquerda ou direita, o que isso quer dizer?”. Vocês ficariam surpresos ao perceber o quanto pessoas aparentemente simplórias as vezes só precisam de voz. Sentindo-se valorizadas e mais cientes de seu papel na sociedade, a estima destas pessoas subiu e muitas delas conseguiram novas colocações. Aqueles que não obtiveram empregos ao menos passaram a ter uma visão mais crítica de seu mundo, mesmo que tenham ainda medo de que essa visão crítica os atrapalhe na hora de buscar um novo emprego: “patrão não gosta de quem pensa”.
Não podemos dizer para um pai de família que ter visão crítica é mais importante que estar empregado, mas com certeza podemos mostrar a ele o quanto estar informado e pensar criticamente sua vida pode ser importante para melhor colocar-se dentro deste novo estado de coisas, sem esperar decisões paternalistas dos governos, mas sim participando ativamente do jogo democrático. O esforço necessário para chegarmos a tanto é hercúleo, mas já é um grande começo.