
Meu avô sempre foi e ainda é um bruto. Homem de outros tempos e de outro pensamento, raras vezes o vi abrir a boca sem que fosse para gritar com alguém. Quando criança eu o temia, mesmo quando ele sorria para mim; ou tentava permanecer indiferente, o mais afastado dele possível. Mas haviam dois momentos nos quais não faltava assunto entre nós: era quando falávamos da música sertaneja de raiz, a assim chamada música caipira, e do São Paulo Futebol Clube.
O amor pelo time da fé foi um dos meus únicos pontos de comunicação com ele e talvez o único legado deixado por ele a meu pai. E foi este legado o grande responsável por toda a mitologia que envolve a camisa de três cores desde a minha infância até hoje. Lembro-me ainda de meu pai me carregando sobre os ombros a caminho do estádio, contando animado as façanhas de Chicão e Cia. na vitória sobre o Atlético Mineiro, em 1977, afinal aquele Campeonato Brasileiro era a glória maior do Tricolor Paulista até aquele momento, no início dos anos 80.
Em 1986 eu tinha 10 anos e tinha começado há pouco a acompanhar verdadeiramente o futebol. Dividia minha paixão com meu pai, minha mãe e meu tio “Nico” (que sempre me dava socos quando eu me sentava ao lado dele no sofá e o São Paulo perdia gols, e mesmo assim sinto toda a saudade do mundo dele). Ríamos ou chorávamos juntos a cada final, a cada vitória ou derrota naqueles campeonatos paulistas pelos quais sinto tanto carinho. Até que chegou a final do Brasileirão de 1986 (que se não me engano, ocorreu em 1987) e jogaríamos contra o Guarani. Fomos ao primeiro jogo, no Morumbi, e depois a partida da volta, em Campinas, uma das finais mais emocionantes de todos os tempos. Empate no tempo normal, 1-1. Na prorrogação, o São Paulo sai na frente mas o Guarani vira para 3-2. Triste, fui dormir pensando se um dia veria meu time ser Campeão Brasileiro, mas acordei assustado com os abraços do meu pai e as palavras que pareciam vindas de um sonho: “Marcos, vem ver! O São Paulo foi Campeão!” e só então fiquei sabendo do gol salvador do Careca, que nos levou à disputa de penalties e ao título daquele ano.
A final de 1991, contra o Bragantino, fez soltar um grito que estava contido na garganta, quase sufocando. Éramos vice-campeões dos últimos 2 campeonatos, em finais traumáticas contra Vasco da Gama e Corinthians. Mas cada segundo de espera valeu a pena, pois aquele era o início da fase mais vitoriosa do São Paulo, comandado então pelo saudoso Telê Santana. O início dos anos 90 foi mágico para mim, os melhores (e piores) anos da adolescência. Os amores platônicos, os pés na bunda, a música, os livros, o violão e o basquete; mas também as idas ao Morumbi com meu pai, as madrugadas vendo os títulos comemorados no Japão ou assistindo programas de mesas redondas, para os quais eu ligava e ficava esperando o apresentador falar meu nome. E o São Paulo conquistando o país, o continente, o mundo.
Os anos se passaram e só agora, 15 anos depois, fomos campeões brasileiros pela quarta vez. Foram 15 anos de vitórias e derrotas, de lutas, de revolta, de tristezas e alegrias, mas principalmente de orgulho. O Campeonato Brasileiro é de longe o mais difícil do mundo, e não há como expressar o que sinto por ver meu time campeão deste torneio pela quarta vez, sem investimentos multinacionais oportunistas ou parceiros desconhecidos envolvidos em negócios escusos. É uma alegria ser campeão dentro de campo, com uma campanha invejável, sem que jogos tenham que ser repetidos e sem que resultados tenham que ser invertidos. É bom demais poder gritar “É campeão!” sem um sorriso amarelo no rosto.
É uma alegria ver minha mãe chorando de felicidade após mais uma vitória. É uma alegria ver o trabalho de homens como Souza, Mineiro e Muricy Ramalho resultar em algo tão lindo, e confesso que chorei também. Salve o Tricolor Paulista, 4 vezes campeão do Brasil, 3 vezes campeão da América e 3 vezes campeão do mundo. Não há quem represente tão bem as cores e o povo do meu estado.