Era a inauguração de um centro cultural qualquer em São Paulo, meados dos anos 90. Um rapaz estava passeando com a namorada e chegou a uma área onde fantasias de heróis estavam disponíveis para quem quisesse vestir. Os olhos brilhantes e excitados dele buscaram rapidamente a fantasia do
Morcego entre tantas outras e foram ao encontro dos da namorada, esperando a resposta: “está bem amor, eu sei que você quer ser o Batman”. A frase acima, dita por uma mãe que passava segurando o filho pela mão, foi realmente ouvida. Fotos foram tiradas (hoje todas guardadas a sete chaves) e o rapaz em questão é este que vos escreve.
A história toda começou em 1989 quando, aos 13 anos, li pela primeira vez a história “As muitas mortes de Batman”, de Jim Starlin, Jim Aparo e Mike de Carlo. Fiquei fascinado ao ver o quanto o “maior detetive do mundo” que estava naquelas páginas era diferente do Batman gordinho e brincalhão que eu via na TV. O saldo, além do caso da fantasia que acabo de contar, é uma verdadeira fortuna gasta na compra de revistas em quadrinhos e um morcego tatuado no braço esquerdo. Fica fácil perceber então o tamanho da minha expectativa pela estréia de Batman Begins.
Não tenho nada contra o seriado Camp e Kitsch dos anos 60. Batman foi idealizado por Bill Finger, e pela primeira vez desenhado por Bob Kane, como um ser sombrio e violento, mas sempre foi um produto de mídia adaptável às diferentes épocas. Seria na verdade muito estranho que ele fosse sombrio na “colorida” década de 60. Já os primeiros filmes do Morcego foram verdadeiras afrontas ao personagem exatamente por desrespeitarem este princípio. Enquanto o Batman dos quadrinhos nos anos 80 aproximava-se bastante do original, a Warner preferiu o caminho fácil de criar verdadeiros pastelões. Mesmo o Batman de Tim Burton não passa de uma caricatura, apesar de alguns acertos.
Já a quinta aventura do Morcego pode ser analisada sob duas óticas distintas. É um filme de ação razoável para quem não é fã, e um filme muito bom para quem é. Quem não tem a identificação do fã com o mito de Batman não verá mais do que uma história de lutas e perseguições dentro de um roteiro que poderia ter sido mais bem amarrado. Estão lá os ingredientes esperados: a “megalomania” dos vilões que querem destruir a cidade, seitas secretas e um clima sombrio amenizado por tímidas tentativas de humor (o que é ótimo). Mas a impressão que tenho é a de que muita coisa originalmente filmada foi deixada de fora durante a edição final. Alguns “cortes” durante o filme são realmente abruptos, me dando a idéia de que o ritmo da trama foi sacrificado em alguns momentos, talvez para manter a história relativamente curta. Não duvido que venha por aí um DVD contendo uma nova versão com minutos a mais.
Mas, principalmente para quem é fã, o filme tem muito mais acertos do que erros. A escolha de Christopher Nolan para a direção foi mais do que acertada. A “atmosfera” dada ao universo do Morcego tem muito do que já fora visto em seus filmes anteriores, mas de forma discreta. O primeiro Batman não é um filme do Batman, mas de Tim Burton, e sempre será lembrado assim. Nolan não permitiu que isso acontecesse e parece ter feito a “lição de casa” que nenhum outro diretor antes dele fez: leu os quadrinhos.
Amando ou não o filme, o fã sente-se respeitado pela forma escolhida para retratar Batman. Christian Bale está perfeito como Bruce Wayne e pela primeira vez a história de um homem que se veste de morcego e sai pulando por aí de prédio em prédio parece verossímil como é nas revistas. O Batman do filme é tão real que percebemos seus problemas psicológicos sérios (parte do charme do personagem) e o quanto ele luta constantemente para dominar sua raiva e seu medo.
Esta ainda não é minha adaptação dos quadrinhos para o cinema preferida. Perde para Superman (1978) e para os dois episódios de Homem-Aranha, mas foi um grande avanço em se tratando de Batman, e a seqüência realmente promete. A seguir, minha lista do que o filme tem de melhor (ou, os motivos pelos quais você não pode deixar de assisti-lo):
Os vilões. O mercenário francês Henry Ducard, pouca gente sabe, é parte extremamente importante da história de Batman e foi uma grata surpresa vê-lo neste filme. A maneira criativa encontrada de relacioná-lo com Ra’s Al’ Ghul (meu vilão favorito, que nos quadrinhos costumava ser imortal) foi uma grande sacada do roteiro. Aliás, já que o vilão era Ra’s, poderíamos ter tido, além de Katie Holmes, a presença de Talia, filha de Ra’s Al Ghul e um dos grandes amores do Morcego, talvez interpretada por Salma Hayek (eu veria o filme várias vezes só pela presença dela). Já o Espantalho está “apenas” bem retratado, aparecendo muito pouco.
Os aliados. James Gordon (um ex-soldado de elite do exército estadunidense e policial incorruptível da polícia de Gotham) tem papel fundamental na história. É clara a referência ao clássico “Ano Um”, de Miller e Mazzucchelli, que também aparece no fim do filme (dando a deixa para o segundo episódio da série) e é leitura obrigatória para quem queira conhecer mais sobre o Batman. Lucius Fox também marca importante presença, interpretado pelo ótimo Morgan Freeman. Nem preciso citar Michael Caine como Alfred.
Gotham City. A cidade de Gotham (uma mistura bastante perceptível das locações de Londres e Chicago) é exatamente a cidade que eu imaginava quando adolescente, um lugar que parece estar sempre sitiado e onde não existe esperança. Ver Batman olhando a cidade do alto dos prédios realmente emociona.
O veículo. O Bat-móvel é um tanque de guerra, exatamente como em “O Cavaleiro das Trevas” (também de Miller). Foi o responsável por algumas das melhores cenas do filme.
Referências/homenagens. É divertido encontrá-las durante o filme. O colar de pérolas da mãe de Bruce (que também remete a “O Cavaleiro das Trevas”) e o nome do Comissário, que homenageia Jeph Loeb (autor de “O Longo Dia das Bruxas”) são algumas delas.
Batman/Wayne. Como já disse antes, Bale está perfeito. Bruce Wayne como “playboy” chega a ser irritante, e o Batman finalmente aparece nos cinemas assustador como deveria ser…